Meio e Termo

Novo eu. Nova parte.
Mais de um ano sem poesia.
Idiossincrasia da palavra.
Energia que não se reparte.
Difícil visão.
Excessiva imaginação.
Esquisofrenia?
Não.
"Esquizofrenarte"!

Digerido

Eu tô perdendo os excessos.
Eu tô ficando sem graça.
Morno, refém de um ego seleto.
E daí ?

Eu tô vendedo os excessos.
Abandonando a pirraça.
E com ela,
meus extremos incompletos.
E daí ?

Eu tô entregando os excessos.
A maturidade me caça.
E com fugas,
liberto meus protestos.
E daí ?

E nessa falha me vou...

Feito um bobo metido a profeta,
dono de verdades absurdas
oriundas de uma tranquilidade arrogante
há muito estável,
diria adulta. Diria ininterrupta.

Diria que nasceu a era de um novo tempo
aonde impera o prazer da conduta.
Cessaram os espaços para atitudes poéticas,
maestrante das guerras de penosas disputas.
Coisas importantes aconteceram na gruta.
Lanternas revelaram o caos das lutas.
E no reflexo decidi iluminar a caverna
com a sábia paz de quem só quer renascer.
Dessa forma ninguém mais surta.
É uma outra espécie de querer.
É um outro tipo de labuta.
Diria.

E nessa falta me vou...

Feito um adolescente cheio de energia
que acabara de enfraquecer a visão
em uma batalha que nem mesmo
sabia para quem serviria. Mas serve.
E vem se reproduzindo
com tudo o que sentiu e sente
a cada tentativa nula
que por vezes extravasa em terapêuticas teclas.
Tudo para iluminar o breu da gruta
sem desgastar o brilho das pedras
para não apagar a esperança dos faróis.
Uma vez que a visão agora é turva.
De olhar amarrado. Inseguro.
Cego de nós.

E nessa falta me vou...

Analisando as ondas que batem nas pedras.
O quanto são irregulares, brutas, de natureza incerta.
Águas intensas que volta e meia ainda atingem a gruta,
espalhando os redemoinhos mais importantes.
Marés passageiras são a bússola
dos inexperientes navegantes.
Aonde jaz o eloquente,
sobrevive o paciente.
Assim é a vida. Assim são as regras.
Assim são as dúvidas e seus restos.
Sobras submersas na vontade afogada
que me impulsiona ao adiante.

E nessa falta me vou...

Beirando a paz ranzinza e antipática.
Saudade dos Extremos. Saudade dos excessos.
Saudade das falácias.
Uma saudade que já não faz falta, é costumeira.
Porque definitivamente eu tô refém da nostalgia.
Mas esta é bem diferente.
Porque afinal eu fiquei seleto.
Eu fiquei sem graça.
Sem extremo, sem excesso.
Ainda bem.

O Quase, querendo atenção

Adoro aparecer, fazer o que, nasci assim, com máscaras variadas, desgovernadas, que visam entreter o não e o sim. Há quem as aprecie. Há quem faça piada. Há quem não ache nada em meu jardim. Há quem ame, há quem odeie, há quem apenas reclame por eu me expor assim. E por mais borrados que sejam tais rascunhos de pessoa, tento bancá-los com expressão no punho independente de como o rabisco ecoa. Emito sinais particulares de certo e errado a todo tempo, sem temer aquele que lê, seja nos momentos de grandeza em que abusei de tudo o que desejei ter, ou nos de extrema fraqueza em que passei por poucas e boas e continuei me expondo sem usar dublê.

Minha platéia nunca foi problema. Meu medo mesmo é cair em clichê. Como os fracos que escondem o emblema, se retiram da cena e deixam a honestidade que havia em si, morrer. Agem nos bastidores porque temem a opinião dos demais. Estes sim, são perigosos atores, carentes de valores morais. Estrelas passageiras do supérfluo medo do “vencer” ou “perder”. E para não ser escravo desse ego voraz é que eu os encaro, eu piso, eu falo. Raramente minto. Dificilmente calo. E quando vejo que falho volto atrás. Mas sem me desculpar nas entrelinhas como gente mesquinha faz. Para estes animadores eu lhes confesso que jogo, porque infelizmente eles jogam demais. Preferem blefar ao pôr as cartas na mesa, feito coringas de uma tristeza que ali se faz, sem transparecer. São talentosos profissionais, reconheço. Só deveriam aprender que apenas o perdão e as boas atitudes são dignas da paz que tanto desejam.

Eu venho de outra escola. Criado num cenário sem cortinas. Não preciso delas para me eleger enquanto lacrimejo o que não pôde ser. Talvez por elas serem obscuras para um sagitariano apaixonado, que adora se promover. Um cara quase desprovido de mistério, quase desinteressante, fácil e difícil de conviver. Depende daquilo que você quer ver, daquilo que você julga importante. O que existe em mim vem com bula, para que fique claro aos ignorantes meus momentos de glória e de vexame, de ódio e de ternura, de alegria e tédio. Por mais que a louca carência de dividir o palco me destrua, transformando-me num solitário farejador de aventura, um Peter Pan em busca de assédio.

E não se engane. Eu me importo muito com o cachê. Atrás de cada terno que visto há sempre uma postura de quem compra e quer vender. Pago para ver a reação do público perante minhas travessuras apresentadas em variadas facetas protegidas por armaduras boas e ruins. Ora convincentes. Ora tolas e inconvenientes. Nunca escondi meus demônios mesmo, quiçá os querubins. E é bom ter cuidado, não abandono nenhum dos dois. Só depende de como você quer ser conquistado, sabendo que será julgado depois. Afinal é difícil saber de imediato se lhe darei meu céu ou meu inferno, quem sabe até lhe dou os dois. Ambos estão abertos e a casa é confiável. Só tira o sapato antes de entrar. A faxina é constante e as chaves ficam comigo para regular a forma pela qual pretendes pisar. Afinal de contas um pouco de prevenção se faz preciso, já que o radar da curiosidade alheia me deixa alerta, com luz acesa para a temporada das flores que vão chegar ou, vai saber, dos granizos.

Portanto, estranho convidado, amigo ou inimigo. Você tem conhecimento suficiente das normas da casa para usá-lo em seu favor se for preciso. Assim como a sua função quando dentro dela. E pareça-lhe ou não superficial a maneira com que o anfitrião se comporta, não faz a menor diferença, não é com este tipo de opinião que ele se importa. As satisfações foram um presente para você saber como se comportar ao abrir a porta, que raramente fica trancada. Tal maneira de ser me acompanhará sempre, como necessidade fundamental de uma passageira estada, de forma honesta e transparente. Porque aprecio divulgar de cara limpa meu tudo, e meu nada. E a este tipo de jornada eu chamo vida. E vida não se pode esconder, muito menos deixar engasgada. E por amá-la e odiá-la inconstantemente, assumo-a gentilmente, guiando-a como sempre fiz, em águas frias e calmas, agitadas e quentes, explodindo-me de tanto viver e agradecer por ser um cara de altos e baixos, quase sempre querido, quase sempre amigo, quase sempre feliz.

Amor Por Meio Dia

Meia noite se despia,
na inocência ardente
de quem já sabia.

Meio dia se vestia.
E com palavras valentes,
se recolhia.

Nas lágrimas, as certezas comoventes
de que se deitara com quem não devia.
Na inocência ardente de quem já sabia.
E conseguindo aquilo que queria, ela se encolhia.
E com palavras valentes se despedia.

Tudo o que Carece Varal - Samba do bloco carnavalesco Fogo na Cueca

Fogo na peça indumentária
que protege a jumentalha
do boêmio folião.

Filhos da bebedeira,
que fazem das cinzas, quarta-feira
de pura celebração.

Fogo em tudo o que carece varal.
Fogo em tudo o que parece normal.
Fogo em forma de cueca
Deixa o sapo ver a perereca
Chega de esconder cartão postal.

Taca fogo na cueca que o verão vai ajudar
É melhor mover as pernas, impossível segurar. (Refrão)
Folia mais importante a gente sabe que não dá
É o bloco do Mirante botando a cueca pra girar
Gira de cá, gira de lá, de lá girou
Gira a cueca pra espantar nosso pudor.
Gira de cá, gira de lá, de lá girou
Gira a cueca pra ganhar o nosso amor.

Fogo aos amantes da cachaça,
soldados da ressaca em sal.
Unidos pela sintonia da alegria no carnaval.
Fogo em tudo o que carece varal.
Fogo em tudo o que parece normal
Fogo em toda forma de cueca
Deixa o sapo ver a perereca
Chega de esconder cartão postal.



Para além de onde o dedo aponta

Julgar é ser capaz de discernir.
Não fazê-lo é negar a si.
Julgar sem dizer é omitir.
Omitir o dizer é calar-se ao saber.
É a fraqueza do dedo.
É o abandono do ser pelo medo.
Saber julgar é saber existir.
É saber, ao menos,
para aonde não ir.

# $%&*@#*! ?

Por que
Faustão aos domingos
se o domingo é naturalmente pesado ?

Por que
Toquinho é Paulista
se lhe corre um Rio letrado ?

Por que
Galvão Bueno pergunta
se sempre discorda do Arnaldo ?

Por que
Viver de ideologia
se Cazuza viveu do “exagerado” ?

Por que
O mundo é redondo
se os cérebros são tão quadrados ?

Por que
Vinicius “falar de amor em Itapoã”
se viveu tardes de côco à sombra do Corcovado ?

Por que
Leis brasileiras são ordens
se os códigos revelam a desordem dos advogados ?

Por que
Lula é um presidente honesto
se seus “companheiros” foram partidos, comprados ?


Como
Marcelo Camelo enriqueceu
se ele nunca foi “assim, muito de ganhar...” ?

Como
Chorar miséria alheia através da arte
se toda forma de arte é um protesto particular ?

Como
Blogs femininos podem ser interessantes
se possuem o mesmo linguajar ?

Como
Intelectuais idealizam um mundo melhor
se seus protestos não saem do bar ?

Como
Conseguir um tantinho de paz
se a vida em banda larga não permite respirar ?

Como
O amor transformou-se em troca veloz
se ainda persiste o desejo do altar ?


Chá

Pois é...
aqui separamo-nos.
O elo materno se rompeu.
Cá eu, sem teu cordão,
em estranhos oceanos,
vagando...
recordando valores tão teus.

Estranho pensar em você aqui.
Soa tão ingrato. Tão distante.
Tantas perdas e ganhos,
tantos amores irrelevantes,
para somente agora, firme e só,
dar-me conta de que és, e sempre serás,
a dádiva mais limpa, o habitat mais importante.

Não imaginas o quanto mudei.
O quanto o faminto aquietou.
Aprendeu que mergulhar em busca de vida,
guiada por uma pressa intensa, juvenil e descuidada,
é torturar-se em euforias vencidas,
por uma felicidade inventada.

Perdoe o excesso de egoísmos caros.
A louca procura por momentos raros.
Pois somente agora, o fantasma à solta percebeu,
que recebeu por toda a vida,
amor inigualável até o talo.
Sentimento que nunca lhe devolveu,
na proporção que mereceu.
Talvez este seja o ingrato preço,
de um caçula que vive do somente eu.
Perdoe meu excesso de egoísmos caros.
Minha eterna procura por momentos raros.

Perdoe-me.

Por renegá-la diversas vezes com silêncio
enquanto buscavas instantes de conversa.
Foram as ingênuas inquietações,
fruto da estúpida pressa,
excesso de trabalho, amigos,
aventuras das mais desvairadas proporções,
tudo para viver o ciclo do próprio umbigo.
Tudo para me entorpecer em falsas emoções.

Talvez essa busca tola e crua,
seja hoje meu pior castigo.
Carregar o fardo de ter pertencido
as futilidades de um mundo impaciente, inquieto,
desorientadamente sem sentido.
Me fazendo esquecer que surgi do teu ventre.
Atropelando bons momentos familiares,
dos quais hoje me vejo carente.
Tanto excesso de egoísmo caro.
Tanta procura por momento raro.

Perdoe-me.

Que o mundo corra no ritmo que vier.
Sabendo, porem, que o enfrento de pé, manso e devagar.
Meu templo é independente, não preciso de nenhuma fé para lutar.
É fato, jamais ficarei de joelhos novamente,
pondo-me entre os fracos a chorar.
Pois guardo em mim tua cantiga, amada mãe,
repleta de sábios conselhos.
Prometo a ti, perfeição singular,
realizar teu maior desejo.
De agora em diante,
família em primeiro lugar.

Mulheres, amigos e afins,
falo dos que não fazem parte do lar,
que se entupam de buscas incessantes,
e quando despencarem em desesperos
inquietantes com o universo a sua volta,
que passem lá em casa para nos visitar,
e deixem o gosto da alegria penetrar em suas portas.
Aposto que admirarão nosso reino e teu sereno semblante,
enquanto lhes servimos aquele delicioso chá,

para acalmar as revoltas e fazê-los compreender
que as pequenas e simples coisas da vida,
são as que justificam viver.

Por isso lhe sou grato por tudo.
Por tê-la em meus dias.
Bem vivo, diria. Solitário, talvez.
Pois nem tudo o que me ensinaras fora verdade.
Nem toda as verdades, penso, agora, que sei.
Sua pele, seu caráter, seu jeito doce,
seu abraço que me protegia,
sua paciência que me acalantava,
seu olhar que me engrandecia.
Sua aptidão pela arte e para arte.
Seu encanto. Sua essência.
Curvando-se sabiamente a tristes submissões,
apenas para gerar o bem maior,
sua mais sábia ciência.

Só queria dizer que estou levando comigo, mãe,
tudo o que vem de você.
Só queria dizer que tu me tornaras homem, mãe,
pronto para viver.
Conectado com aquilo que o mundo tem de mais belo.
Mesmo sabendo que perdemos nosso saudoso elo,
que de fato não será o mesmo quando eu desembarcar.
Certamente não sei nem aonde irei morar.
Mas sei, que jamais faltará tempo,
por onde quer que o seu caçula vá,
para tomarmos,
sempre,
nosso maravilhoso chá.

Eu. Te. Amo.



A Paz dos Pés

Definitivamente luto só. Sozinho. E por querer estar. E por querer lutar. Por compreender que a revolucao, agora, passou a ser individual. A minha despertou e não existe forma de manifesto mais conveniente. Protejo meu campo e minha cria. Rezo pelos teus e pelos meus. Para se equilibrar em complexos vínculos, é preciso tragar as energias mais adversas, respeitando tudo aquilo que o limita.

Cigarra e Jô, jogavam...

Joaninha voa plena.
Ciente em calar a cigarra.
Trazendo beleza no emblema,
cria angustia no bicho, que cala.

Em seu mudo canto de perda,
manteve o sorriso na vala.
Escondeu-se com esmera destreza.
Reprimiu-se em sons sem batalha.

Com as negras manchas expostas.
Abusou do rubro destemida.
Perdeu-se em ares e rotas.
Deprimiu-se em inseticidas.

A cigarra sabia do mal.
De vingança, sequer alertou.
Manteve o orgulho em sal.
Vendo Joana sofrer a dor.

Às matas a trova voltou.
Berrando alto a morte em vida.
Em cantos livres resvalou,
uma alegria de cigarra sentida.

In verso

Seja um só.
Mas seja você.
Seja tudo.
Não seja, sem ser.
Seja apenas.
É.
Seja apenas você.

Ou então

Você apenas seja.
É.
Apenas seja.
Ser sem, seja não.
Tudo seja.
Você seja, mas
só um seja você.

Peregrinas Catalépticas

Por medo do tempo, pela carência ou solidão,
doam-se a qualquer braço capaz de ouvi-las com atenção.
Esquecem que o futuro, incerto como um pagão,
quando ignorado é aliado amargo de um resultado vão.
E os erros obscuros causados por inseguranças claras,
rebelam-se em arrependimentos homeopáticos que não amenizam.
E os frágeis ventres das tristes falhas,
alimentam-se de tudo o que não foi vivido.
Talvez por terem fugido da dúvida entre o sim e o não.
Talvez por terem esquecido que o jogo do poder nasceu parido.
E em seus desorientados vulcões... por apelos aquecidos,
brotam novas erupções em berros quase sempre ausentes,
acalmados em um sexo ardente sem valor, sem amor, sem sentido.
Consolam-se em colchões moles, flexíveis e maleáveis,
lutando para inibir um tempo que as assola,
que de abandonado não se deixou esquecido.
É fardo irrecuperável. Imutável. Irreversível.
Não permite choro nem vela... Somente a pá.
Para tapar cada centímetro de ar,
sufocando a vida que pelo medo se rendeu.
Para tapar e cavar...
Um interior que não se resolveu.
Uma ausência que não se preencheu.
Um mal que não se dissolveu.
Para tapar e cavar.

Torrado e Moído

Num misto de orgulho e desprezo vou suportando a humanidade
e todo o seu semblante cínico de amargar,
toda a sua covardia barata que cansa a alma.
E o café que ninguém traz ? Com açúcar, por favor...
Gentinha mais sem sal, sem esperança, povinho mais sem cor,
que suporta e ignora tudo numa autopiedade de dar dó.
Será que é pedir muito ou só eu busco a liberdade?
Ninguém tenta se consertar, mexer aqui ou acolá.
Ninguém se enfrenta, se fala, discute a vida e suas tendências sociais.
Cadê o café que ninguém traz ?

Nunca vi tantas felicidades cansadas como ultimamente,
entregue ao medo das próprias falhas, das inseguranças comuns.
Ajoelham-se por migalhas que preenchem uma vidinha vazia.
Vazia da paz que resolveu ir de encontro ao conformismo
numa serenidade que só se alcança em tristes fugas.
Gente sem amor, sem esperança, sem luta, sem fé, sem luz.
Alguém sabe do meu café ? Aonde foi que eu pus...

Bom mesmo seria poder andar sem pensar em nada.
Sentindo no vento o prazer de se saber capaz.
De poder andar com a cabeça erguida.
Para que aquele que convive comigo possa fixar meu nome.
Apenas fixá-lo, com ou sem prazer no tom,
mas nunca, nunca me taxar de morno,
como este café aqui. Aliás... aceita um?

Insônia da Bonitinha

Queria ter outra cabeça.
Aceitar a diferença dos outros.
Viver intensamente pouco a pouco.
Gozar o melhor que a vida tem.

Queria não estar menor agora.
Para dizer-te que outrora.
Tive medo de ir além.

Hoje só quero mais cabeça.
Por mais louco que pareça,
com você me sinto bem.

Que Deus nos ajude.
Que o mudo nos mude.
Que minha cabeça se perca em virtudes.
Para nunca mais ter que magoar alguém.

Presença Ausente

Sua ausência enerva.
Confunde. Dissolve.
Ilude. Entristece.
Comove. Enlouquece.
Põe o mundo rude.

O mundo rude enlouquece.
Comove. Entristece.
Ilude. Dissolve.
Confunde.

Sua ausência me enerva.

A Olhos Nus

Poeira astuta que me quer cegar.
Permita-me mais goles sujos.
Vomitá-la para não engasgar,
todo o pranto preso mudo.

Ciscos doentes que me aborrecem,
esfregando-me a visão do impuro.
Tão triste foi me enganar.
Tão forte vê-la sem rumo.

Coça naquele que aborrece.
Surra que não se esquece.
Colírio que não se entende.

Cego os julgos com miopia,
nas retinas da hipocrisia,
para suportá-la eternamente.

Enzima

Voe alto. Voe muito, muito alto.
Extrapole até onde achar que deve.
Vá com sua inclinação às vezes pra lá de acentuada,
medindo forças erradas, feito criança mimada querendo greve.
Até encontrares teu topo, passarinha, diga-me o que vê lá do alto.
Use sua aerodinâmica volátil para entender
se foi apenas um deslize, um erro de cálculo.
Veja se por detrás da colina há a possibilidade
de um ninho mais aconchegante, que suporte ambiciosos saltos.
E não se acomode até entender se ficamos pequenos lá de cima.
Depois, batiza-te com amor e gasolina
para quando retornares suportar nosso humor,
pois será este a nova enzima.
Voe sabendo que pairar nos ares do esquecimento
é o mesmo que apostar em maus passatempos,
que oferecer-se como presa preferida das perigosas carabinas,
alvo comum dos fissurados caçadores de rapina.
Aconselho que desças logo do penhasco cinzento e pouse.
Nem que seja para dizer se devo ou não
aparar minhas asas pequenas e entender de vez seus problemas
e toda essa razão para tantos longos vôos
sempre promovidos por asas cheias de envergaduras.
Depois podes decolar sem compostura e voar para o longe.
Mas se decidir por ficar, então que pouse,
adormecendo todos os seus problemas
em minhas sensíveis penas consoantes,
daí sim, descanse teu aventurado bico e repouse.
Mas enquanto isso, passarinha, também migrarei de galho em galho,
passando o caralho em novas aves peregrinas.
Será esta a minha predestinada sina? Se for, então por favor...
preciso aprender a voar como você, preciso de enzimas.

Amizade Ancorai

Divina Mãe.
Ancore o barco menino.
Mostre-lhe o chão.
Ensine-lhe a aportar se for preciso.
Veleja no vento do barco que vai,
carregando este alento iluminado,
com a fé angustiante de seus ancestrais
exposta na carne que deixa legado.
Poeta matreiro não morre à toa.
Conhece o mastro livre que guia.
Tem alma velha de idéias brilhantes.
É marinheiro prodígio dos santos que cria.
Aborda o barco deste menino intenso
para todo sangue que existe à distância.
Acalma-lhe o pé em areias finas.
Filho inquietante do mar que avança.

Domine a euforia que tens em veia, menino.
Reja o motor de tua sina.
Deixe a mandinga. Carregue a estrela.
Conduza o barco em direção a menina.
Proteja-se de más maresias corriqueiras.
Curta a curta das ondas que dançam.
Não naufrague em pedras traiçoeiras.
Sossega em águas teu medo imanto
que tua Mãe Natureza separou bons faróis.
Procure nas rochas mais luminosas
de cada porto repouso em teus lençóis.
Rezo por ti, amigo à deriva.
Que saias do cais sedento de tempo.
Ouça a Mãe de todas as vidas.
Siga você, que o amor lhe basta.

"Meio Assim Sei Lá..."

O Carnaval foi meio assim...
sei lá, sei sim.
Boemias, fantasias...
diferentes classes se interagindo em quatro intensos dias de folia,
como se todo aquele tom de magia
não fosse terminar em previsível festim.
Pessoas descomedidas
fazendo o que querem da vida,
trocando máscaras num verdadeiro baile de almas vendidas.
Tudo parecendo estar meio assim... sei lá, sei sim.
Um repeteco de gente numa farsa sem fim,
zombando forte e estridente,
entre os surdos e os absurdos,
entre as cervejas e os tamborins.
Talvez seja a saudade que você esteja causando,
reforçada por cada faceta carnavalesca que não mais convence,
uma saudade pertinente e sem dono,
de amedrontar e pertubar o sono,
justo na esperada data que anunciava o profano.
Data em que os novos amores deveriam retirá-la do trono,
mas não...
fiquei realmente meio assim, se lá, sei sim.
Talvez com sua presença não seria tão assim... sem lar, ruim.
Será que é você mesmo?
Ainda que não ou que sim,
tá me causando solidão. Tá me deixando meio assim... sei lá.
Sei lá? Tomara que não e espero que sim.
Sei sim!? Sei não!?
Pobre de mim...

Bicho Papão

Porque te assustas tanto?
Porque, entre trancos e barrancos,
não supero sua falta simples?
É carnaval e o solavanco não me chega.
Apenas preocupações em agonias latentes.
Pensei que fosse mais fácil, coisa passageira, um livro de cabeceira
ou qualquer lembrança rotineira suportável, mas não,
cada vez mais sinto uma vontade ainda proibida,
inibida, louca e lastimável
de calar você, de te abraçar com paz e não deixá-la queixosa.
E você, suada e quente, calada e preguiçosa
apenas dormiria o sono justo,
como no silencio de uma criança protegida.
E em cada novo despertar, estejas ou não em meu altar,
espero que compreendas que não passou de intuito tolo,
achar que o meu amor seria algo difícil demais pra você cuidar.
Ao menos saiba que há alguém que gosta de você e quer protegê-la.
Alguém que quer abraçá-la só.
Portanto, não sejas resistente, sejas reta e coerente,
fazendo sem cautelas aquilo que julgar como o melhor.
Mas por favor entenda que toda essa peleja é para lhe servir o bem,
e não alimentá-la de tristezas, se esta não me convém.
E por mais egoísta que lhe possa parecer
O que lhe arranco com prazer
É o prazer que não me tem.

Mais um Round

Sabe, primo...
O que alimenta a impressão que muitas mulheres têm sobre o amor são suas próprias incertezas. O problema é que você é um cara cheio de certezas pra dar. Você deve escolher entre viver o perecível ou ancorar-se no desonesto. Seja qual for sua decisão, aguente a porrada e mantenha-se de pé.

Canastra Real



De que adianta ser o Ás, bancar o Espadas,
vender seu Ouro pra sentir-se o Rei,
expor um Naipe em cada passada,
se elas que escolhem o Curinga da vez?

As Rainhas não querem ficar nas Copas.
Modernas, desejam novas Batidas.
São Damas de Canastra Suja
com Cartadas bem servidas.
São outros tempos, novas disputas,
uma lição a cada partida.

Na mesa, pedem outra Rodada.
Inseguras de si variam em Paus.
Com blefes encaram novas jogadas,
com a cara lavada de profissional.

Reconhecem-se em cada Sequência.
Não sabem ganhar com Coração.
Nas cavadas querem a sorte,
e o Buraco, evolução.

Ou você Blefa e banca o Morto,
nesse jogo de precisão.
Ou vai terminar vendido.
Vai implorar outra Mão.



Caráter

Tenha caráter, rapaz.
Não meta o olho grande num amor maior ainda.
Deixa fluir em paz, a paz que nasceu pra toda a vida.
Ao menos você teve provas de que há sentido,
que existem motivos pra continuar.
Então se erga, rapaz, esqueça e prossiga.

Jogue a armadura fora e entenda que ninguém teve culpa.
Arrume a casa e procure outra tenda, ou uma outra maluca.
Mas por favor, tenha hombridade e respeito aos bons.
Não volte a interferir com sujas ambições
no amor perfeito, cravado no peito de dois foliões.

Perde-se aqui, ganha- se lá. Espalhe o bem por toda a vida.
Não importa o seu gostar, saiba lidar com a despedida.
Seu momento vai chegar e vai chegar outra atrevida.
Todo tormento há de passar, cê vai ver...
seja no carnaval ou na avenida.

De que adianta o seu egoísmo, a sua vontade, a sua saudade,
diante da complexidade dos que herdaram a eternidade.
Portanto, deixe o casal à vontade.
Deseje o melhor pra ela, e que ela viva pra ele.
Deseje o melhor pra ele, e que ele viva por ela.
Mas por favor, viva! Sobreviva... saia dessa novela.

Tem que ser mais, rapaz. Certamente você é maior ainda.
Leve esse aprendizado voraz. Esforce-se que o bem predomina.
Não interfira no que não era pra ser, não é você, não combina.
Você está muito acima do que se espera.
Apenas cuidado com o caráter, rapaz,
jogue as mágoas pela janela e, por favor, não volte atrás.
O que é seu está guardado. Ninguém pega.
Basta ter caráter, rapaz,
o caráter dele por ela.

Pecado Capital

A corporação me chama.
Não sei se fico, se parto ou deito na cama.
Alguma voz emana,
fico perdido num vácuo de opiniões levianas.

Minha mente insana,
transita em parafuso.
Me largo, não penso. O tenso ficou mudo.
Esse momento diz tudo.
Estouraram minha bolha de Salvo Conduto.
Fodeu, o tempo agora é curto.

Tem um chamado lá fora de grande tormento
e uma puta proposta correndo cá dentro.
Não sei se fico, se entro, se paro no tempo.
Quero a fórmula do pressentimento.

Diferente do que vivi agora,
existe um mundo de grandeza lá fora.
Se vender-me por essa matéria,
morre o sonho da Europa velha.

A oferta é sincera. A rainha me espera.
E o reino daqui não é nada unido.
Não sei se vou, não sei se fico.
É partir na tentação do acaso
ou cair de um precipício em longo prazo?

Agora voz digo, com paz sem juízo,
Vou porque quero.
Vou porque posso.
Vou porque preciso.

Reflexo Condicionado

Meu corpo criou casca.
Sólido na dor.
Escravo de inúteis mágoas,
nascidas de verdades sem pudor.
Meu corpo é casca. Pura, mas sem inocência.
Preso nos detalhes de uma vaidade surda, muda e violenta.
Se a vejo pelo sombrio, perdão, peço clemência,
mas meu corpo agora é casca,
e através dela, somente dela se alimenta.
Engoliu a seco tudo o que cabia.
Hoje a sede é de caber.
Foi imaturo achar que poderia ser
teu num dia, e noutro parecer.
Da saudade ingênua sobrou a casca,
que me protege do teu mundo.
Desejo, inesquecível moça,
que encontre a paz em seu novo rumo.
Viva você.

Flora

Viva o intenso.
Viva a busca.
Sinta o aumento de vazio no peito.

Viva a perda.
Viva o ganho.
Sinta o gozo e seus defeitos.

E nesse vai e vem constante,
todo amor vira laxante.
Desce rápido,
pelo cu dos incessantes.

Saia Justa

Às vezes
nos confrontamos com duas opções de vida.
Por vezes
nos abafamos na saia da simples querida.
Tem vezes
que a alma encara, a cara da nova avenida.
E a querida
passa a adotar uma saia mais pervertida.

Inteligência Emocional

Saudade do intenso jeito de amar.
De entregar meia vida em troca
de tudo aquilo que eu puder algum dia não cobrar.

Não há esforço. É parte.
E através dessa arte vejo as pessoas como são.
Cada uma de suas faces.

Não sou mais a criança que todos adoram,
mas adoraria recuperar valiosa inocência.
Desta forma não me devoro,
nem a outro amor ignoro
por medo das conseqüências.

Reconstrução

A única forma de um homem desapaixonar-se
é atingir o fundo de seu próprio poço.
Do contrário, nem o próprio tempo, nem o próprio poço.
Ache o seu fundo e liberte-se!
Você verá que as verdades eram meias
e que o amor não se constrói com palavras.

Baixo Ego

Aquela moça mexe comigo
de um jeito que não consigo.
Carente de si, me dá castigo.

Aquela moça mexe comigo,
numa vaidade bruta.
Não pára de jogar.
É tudo busca, é tudo busca.

Aquela moça mexe comigo,
com malícia que a difere.
Brinda com tudo o que sinto,
faz que não fere,
mas fere.

Aquela moça mexe comigo,
sustentando um baixo ego.
Não diz que sim, nem não.
Pensa que estou cego

Cego pela moça,
que não merece meu pensar.
Cego pela moça,
que não enxerga a quem se dar.
Cego talvez esteja,
por não ver quem me deseja.
Só vejo a moça de abrigo,
aquela moça que mexe comigo.


Em parceria com Bartoli:
http://www.bartoletrado.blogspot.com

Universo inaceitável

Uma ruiva me deixou.
Sem pena, sem eira, sem beira,
sem chão, sem colchão... numa frieza verdadeira.
Partiu magoada numa maldita quinta-feira,
sem amor, sem amizade... sem falsas maneiras.

Degradei-me em segundos.
E na insegurança de um perdido vagabundo
ousei compreender as engrenagens do mundo.
Conheci santas, ou putas? Rodadas, ou enxutas?
Não sei. Cansei.
Querer um amor inerrante é uma busca tão inocente quanto bruta.


Estação Destino

Olho em volta de mim e percebo que não sou o mesmo.
Meu mundo gira, gira...
mas não sai do lugar de onde veio.
Quando penso que tenho uma vida
reduzida pela idade que já foi desperdiçada.
Recomeço uma jovem partida,
onde o destino é a chegada.
Daí é que percebo que ela só dura
quando a alma compreende cada caminhar.
E aceita, com nostalgia e receio,
que o tempo não pode parar.

Mundano

Por tudo o que já vivi.
Por tudo que ainda resta.
Preciso compreender
um conflito que me adestra.

É difícil seguir assim...
mudar o mundo e não mudar a mim.
Sentir o gosto da vontade de agir,
com o do desgosto a coibir.

Talvez seja melhor marchar.
Rastejando-me aos clichês do bom senso.
Programar vindouro viver,
obediente ao universo de "exemplos".

Se todos fossem como sou
e entendessem arrogante rigor.
Que seja egoísmo ou mero desejo interior,
pouco me importa.
Quero o comportamento dos mortais
dançando com meus ideais.


Trocadilhos de culpa


Desculpa, culpa.
Prefiro me deitar em outro abrigo.
Já lamentei perdas maiores em ombros amigos.
Sossega... culpa. Minha desculpa e cega de sentidos.

Culpa, me desculpa.
N
ão sei me render ao perdão.
Mesmo que morra tudo em mim.
e orgulho danado, culpa,
banhado de solidão.

Dor que nao tem fim.
E o pior e que ainda me sinto seco.
Sede de culpa?
mil desculpas, mas...
a vida é assim.

Monofobia


Saudade do gosto de vida.
Cá eu, Fudido. Frustrado. Perdido.
Alguém que se quer apagado, despercebido.

Onde estão aquelas velhas lamparinas?
Cadê o castiçal? Como o tempo passa depressa.
São tantas coisas acontecendo.
Só penso em cuspir, cuspir, cuspir!!!
A semente do acaso envenou meu sorrir.


Só quero a paz iluminada da velha lamparina,
e do castiçal também. Saudade do gosto de vida.
Ah.. o castiçal.. onde foi que eu guardei?